Mas qual foi a sensação de ter saído do Brasil e viajado até o outro lado do mundo para assistir o Corinthians? Hoje entrevistamos o torcedor Fausto, que foi junto com o seu pai para essa aventura inesquecível. Confira a entrevista abaixo:

Qual foi a sensação de ter ido até o Japão para assistir o Corinthians? Você já tinha feito uma viagem tão longa assim? Logo após o título inédito da Libertadores, já veio essa viagem em sua mente?
R:  É muito difícil descrever em poucas palavras a exata sensação de cruzar o mundo para ver o Coringão jogar. Só a viagem ao Japão em si já é algo bastante empolgante e diferente. Adicione a isso a possibilidade de ver seu time ganhar o mundo mais uma vez e junto com o meu pai, nossa, diria que resumindo, é “sem palavras”.
Já havia viajado bastante antes, mas nunca para tão longe. Fizemos escala de três dias na ida e quatro na volta em Nova York. Então, foi bem tranquilo quanto ao trajeto. O frio que fazia em Manhattan e no Japão eram absurdos. Roupas e mais roupas, casacos, luvas, gorros e até uma balaclava em Nagoya. Fato curioso é que nos EUA já se via um movimento muito acima da média de torcedores do Corinthians em todas as atrações e locais que íamos.
Eu já vinha estudando a possibilidade de irmos para a terra do sol nascente desde as oitavas de final, mas foi no dia seguinte ao título invicto da Libertadores que fui ao site da FIFA e garanti os ingressos para a semifinal e para a final. A ansiedade era enorme e não dava para esperar, pois a invasão aconteceria e poderia acabar os ingressos rapidamente, como de fato ocorreu.

Você disse que foi com o seu pai. Qual foi a reação da sua família ao contarem que estavam planejando viajar ao outro lado mundo para assistirem o Corinthians?
R:  A família toda é corinthiana e ficou superfeliz com a ideia. Claro que acharam que era loucura, mas disso corinthiano entende e muito bem. As dúvidas normais surgiram deles todos e de meu pai também. “Como se comunicar? O que comer? E se vocês se perderem?” Mas como estava acostumado com viagens internacionais e por falar inglês sabia que estaríamos num país de primeiro mundo com todos os serviços de qualidade e diante de um povo educadíssimo e hospitaleiro.

Como foi a chegada de vocês no Japão? Um país totalmente diferente, foi difícil se adaptar durante os dias que ficaram?
Bom, cabe salientar aqui que toda a viagem foi feita por conta, ou seja, escolhemos os voos, hospedagens, passeios, deslocamentos etc. Eu sempre viajo assim e desta vez não seria diferente.
De Nova York para Tokyo foram 13 horas de avião cruzando pelo temível e inóspito Alaska. Ao pousar, com um frio de congelar, seguimos a lógica, utilizando o transporte público e chegando ao hostel que escolhemos. Sim, um hostel! E foi a melhor escolha possível, pois estava cheio de corinthianos de todas as classes sociais. Não estávamos no Japão para buscar luxo e ficar dentro de um quarto de hotel e sim para sentir o que acontecia no país e principalmente, óbvio, para ver nosso timão erguer mais uma taça.
Andar e conhecer o Japão é muito fácil. Há muito respeito, filas organizadas, transporte público excelente, trem bala sensacional. Enfim, tudo funciona e muito bem. O povo japonês é extremamente educado a ponto de constranger. Explico: quando se comprava alguma coisa nas lojas, eles agradeciam por quase minutos, se curvando e sorrindo. E com isso, ficávamos sem jeito para ir embora e deixar a pessoa ali agradecendo.
Uma coisa que chamou muito a atenção foi que não há um papelzinho de lixo no chão e mais, não há lixeiras. Ou seja, não se joga nada porque não se come pelas ruas, por exemplo. Não se fuma em qualquer lugar também. Existem áreas específicas para isso e todos ficam ali fumando e jogam suas bitucas no local adequado. Tudo uma questão de hábito e educação. Nova York, por exemplo, é uma cidade fantástica e tal, mas suja como qualquer cidade gigante ocidental, mesmo as de primeiro mundo.

Conte mais sobre a relação com os japoneses. E a torcida do Corinthians? Teve realmente uma invasão nas ruas? Por onde passava você encontrava torcedores do Timão?
R: Como já mencionei, os japoneses são muito educados e hospitaleiros. Por exemplo, para achar o hotel em Nagoya, palco do jogo da semifinal, tivemos que recorrer a um japonês que passava ali pela estação de metrô/trem. Não são muitos que falam inglês e eles se sentem muito mal por não poderem ajudar. Mas este falava um pouco e parou para nos ajudar. Mostramos o endereço para ele e prontamente, num passo acelerado, ele pediu que o seguíssemos. Fomos atrás, meu pai com seus 70 anos à época deu seu máximo e acompanhamos o solicito japonês. Bem, ele ia, perguntava para um, para outro e seguia e perguntava, até que achou e, muito realizado por poder ajudar, nos deixou em frente ao hotel. O nome era Washington e a placa que indicava estava muito escondida. Acho que sozinhos estaríamos até hoje procurando em Nagoya. Detalhe, ele estava no horário de almoço e passou bem uns 15 minutos conosco atrás de resolver nosso problema.
Era simplesmente surreal andar por qualquer local nas ruas de Tokyo e Nagoya e ver corinthianos para todos os lados. As lojas imprimiram folhas de sulfite com símbolos do Corinthians para serem receptivos e chamarem a atenção. Onde ia tinha aquele monte de torcedores e sempre se gritava um “VAI, CORINTHIANS”. Tenho certeza absoluta que os japoneses nunca viram e nunca virão nada igual. Era em restaurante, em loja, em templo, nas ruas, calmas ou agitadas, onde fosse, cheio de corinthianos. Para se ter uma ideia, na saída do metrô de um dos bairros mais agitados de Tokyo tinha uma loja de esportes enorme cheia de camisas do Corinthians. Já tínhamos as nossas, mas acabamos comprando uma para cada, pois ali eles colocavam os nomes e pedimos que colocassem nossos nomes em japonês com as letras deles à partir dos fonemas dos nossos nomes. E, claro, que depois eu perguntava a japonesas, principalmente, o que estava escrito e elas pronunciavam “Fausto”. Foi muito divertido.

E no estádio? Qual foi a sua sensação ao ver o tanto de corinthianos presentes na arquibancada? O Japão virou o Pacaembu?
R: Em Nagoya tivemos que trocar os vouchers por ingressos e para isso ficamos numa fila interminável. Foi o único ponto negativo da organização do evento. Acho que não imaginavam o tanto de corinthianos que iriam para esse jogo. Era 100% brasileiros, praticamente. Tinha um grupo de cerca de 20 torcedores egípcios do Al Ahly e pouquíssimos japoneses. A sensação era total de Pacaembu.
Foi muito bacana ver uma excursão de pequenos japoneses, crianças com seus 7, 8 anos, em fila, junto com professores, e passavam gritando em coro “CORINTHIANS”. Curioso é que o cumprimento “oi, boa tarde, olá” em japonês (KONICHIWA) parece muito com “Corinthians”, o som. Então, mandávamos a toda hora uma mistura de Corinthians com konichiwa para os japoneses, que prontamente sorriam e respondiam.
Dentro do Toyota Stadium, em Nagoya, foi o maior frio que já passei na minha vida. Neste dia usei a balaclava. Não teve como. O jogo foi tenso demais e só esquentou com aquela trivela do Douglas para o complemento de cabeça de Paolo Guerrero. E estávamos classificados para a grande final.
Em Yokohama, na final, foi sensacional ir ao estádio. Ele fica um pouco afastado do centro e há que andar por um bom trecho. No caminho, só corinthianos e muitos japoneses. Em um pub, já perto do estádio, havia um grupo de torcedores do Chelsea. Houve confraternização entre os torcedores e um clima de extremo respeito e paz.
Era um mar alvinegro a caminho do palco da final. Chegamos bem cedo para ver a disputa de terceiro e quarto. Porém, antes de entrar, rolou uma concentração/aquecimento em frente ao estádio. Ali parecia que estávamos no Brasil. Incrível! Os japoneses, que usavam camisas do Chelsea, na maioria, mas usavam faixas do Corinthians, se renderam a fiel e, tenho certeza que ali começaram a entender o que estava por vir.
Compramos ingressos categoria 1 e ficamos no nível mais abaixo e próximo ao campo. Era justamente abaixo de uma faixa escrito “CURITIBA”. Lembro de ver o Washington Olivetto por ali e mais alguns famosos, mas o que chamava a atenção era que o estádio estava completamente tomado de corinthianos. Foram 68.275 torcedores no total. Eu diria que 40 mil eram do Corinthians. Daí, vem uma história interessante. Na época se falou em mais de 12 mil vistos retirados no consulado do Japão. Podem duvidar, mas nas idas e vindas pelos metrôs e trens, conversamos com pessoas que diziam que tinham entrado no Japão com passaporte europeu. Foi nosso caso. Como italianos, entramos sem visto e posso afirmar, de cada 10 uns 7 havia feito o mesmo. Então, não contamos como brasileiros que tiraram visto. Foi uma invasão sensacional, indescritível e inigualável. Quem esteve lá sabe. Até o PVC, palmeirense fanático e o André Plihal, são-paulino de carteirinha, disseram ao vivo, “nunca se viu nada igual; cerca de 35 mil corinthianos invadiram o Japão”. Outro ponto interessante foi constatar que muitas pessoas saíram da Austrália, da China, da Nova Zelândia, fora os milhares de brasileiros que vivem no Japão. Então, podemos dizer que foi uma invasão corinthiana por todos os flancos.

Conte alguma história engraçada que vocês presenciaram neste dias no Japão.
R: Poderia escrever um livro sobre essa viagem. Foram muitas histórias boas, divertidas e curiosas. Uma delas, que posso contar como exemplo, foi a ajuda que prestei a um corinthiano no hostel de Tokyo. Eu reconheci o cara. Sou muito bom com fisionomias e lembrava dele de algum lugar. Depois liguei os pontos e soube que era o torcedor que tinha ido do Rio de Janeiro à São Paulo a pé para pagar a promessa de ter visto o Corinthians na Bombonera. Tratava-se do Rodrigo Parente, grande figura.
Foi o seguinte, estávamos eu e meu pai no quarto e pude ouvir uma conversa estranha entre alguém falando português e duas pessoas falando inglês e japonês. Não fazia sentido e percebi que havia desespero nas palavras do brasileiro. Eu me senti na obrigação de ajudar e fui fazer a intermediação. O Rodrigo tinha pegado menos dias do que precisava no hostel e tinha achar um lugar para ficar, pois ali não havia mais vagas. Ele só queria deixar as coisas dele no estabelecimento e sair a busca de uma acomodação e os atendentes explicavam que ele poderia deixar embaixo das escadas, que era seguro e não havia problema algum. Mas e pra eles se entenderem? Hahahah Mas no fim deu tudo certo.
No mesmo hostel havia um pessoal da Rua São Jorge. Eles explicaram o que era o movimento e contaram sobre causos da torcida corinthiana no Japão. Teve um grupo de torcedores que conseguiu um hotel abandonado perto de Yokohama e não havia luz e nem água. Os caras meio que haviam sido enganados. Deu pena, mas também, eles deveriam saber o risco que corriam e mesmo assim, pela loucura pelo timão, decidiram encarar. No fim deve ter dado tudo certo e o segundo título da Copa do Mundo de Clubes da FIFA lavou a alma e curou qualquer ferida ou ressaca de todos os corinthianos espalhados pelo mundo.

Veja algumas fotos de Fausto no Japão, junto com o seu pai:

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