Gaviões da Fiel revive samba que virou música de arquibancada; ouça e saiba informações do desfile


É natural associar o clima de arquibancada ao desfile de Carnaval da Gaviões da Fiel, escola de samba da principal torcida organizada do Corinthians. Às 5h de amanhã (3), no entanto, a agremiação vai levar para o Sambódromo do Anhembi um dos gritos mais comuns nos jogos do clube alvinegro, desde os tempos de Pacaembu. O samba-enredo “A saliva do santo e o veneno da serpente”, cantado pelos torcedores nos estádios pelo Brasil afora, será reeditado 25 anos depois de nascer.

Em 1994, a Gaviões da Fiel terminou com o segundo lugar usando o enredo. Membros da velha guarda da escola reclamam até hoje do resultado, dizendo que o jurado que deu uma nota menor teria trocado a papeleta e anota da Gavioes seria, na verdade, a de outra escola. Este sentimento de injustiça, asseguram, levou o samba-enredo para arquibancada e fez a música pegar, quase três décadas depois nos jogos do Corinthians.

“Era um samba bem executado antes do desfile, aí aconteceu aquela questão da nota que tirou o título da Gaviões. Isso gerou uma empatia maior com a música, virou um grito de guerra contra as coisas erradas, contra o sistema. Foi uma maneira que o torcedor achou para protestar. Até hoje perdura”, contou ao UOL Esporte Ernesto Teixeira, 54 anos, puxador da escola hoje e há 25 anos.

Esta associação com a música de arquibancada misturou confiança com preocupação nos meses antecedentes ao desfile. O sentimento de nostalgia de um samba que se tornou “grito” nos jogos do clube se unia à responsabilidade de unicamente trazer o tema do enredo para as fantasias, alegorias e integrantes do desfile.

A letra fala do tabaco, a ser retratado com a roupagem do “século XXI” na manhã deste domingo, a partir das 5h (de Brasília). Qualquer relação direta com a presença do samba na arquibancada, assim, se limitará ao canto dos integrantes e apoiadores que estarão no Anhembi.

“Este samba, para o corintiano, é mais ou menos o que aconteceu na ditadura com ‘O Bêbado e o Equilibrista’ [Elis Regina]. Reúne sentimento, canaliza, mas sempre temos que reforçar que este samba canta a história do tabaco, é sobre isso que falaremos e vamos discorrer”, explicou o carnavalesco Sidnei França.

“Devido à popularidade do samba, já que todo corintiano conhece e canta nos estádios, eu acho que, mais do que qualquer coisa, a palavra que vai resumir é emoção. Vai ser emocionante. Quem viveu 1994 vai querer reviver. Quem não viveu vai poder passar a magia deste samba passando na passarela. Vai ser marcante. Será a primeira escola do grupo a reeditar e trazer um samba do passado”, acrescenta o profissional, que assina seu segundo desfile pela Gaviões.

A escola promete recompensar os torcedores e prosseguir com a execução do samba-enredo pelas ruas de São Paulo. A Gaviões da Fiel planeja reunir a bateria e os integrantes para uma caminhada do sambódromo até a quadra, em percurso de pouco mais de 3 km. A ideia é cantar o samba e promover um desfile alternativo pela Marginal Tietê até a casa da torcida organizada.

VOZ DO SAMBA SE EMOCIONA NOS ESTÁDIOS


Ernesto Teixeira é a voz dos sambas da Gaviões da Fiel desde 1984. Mesmo acostumado com o clima do Carnaval e com a adrenalina do sambódromo, o puxador prevê uma madrugada de domingo diferente pela “força” do samba, que se fixou na arquibancada do Pacaembu, seguiu vivo com a modernidade da Arena Corinthians e agora retorna ao Anhembi.

“Eu vejo na arquibancada. Quando não trabalho na rádio web narrando os jogos na Arena, fico na arquibancada, na Norte, com o povão. É uma coisa viva que o tempo não apagou, a música se mantém com a mesma pegada e intensidade. Tudo o que é bom, fica. Ficou na mente”, reforça, sem imaginar como será a própria reação com os primeiros acordes.

“Tem algo a mais por esta questão sentimental. Você pega o cara que há 25 anos desfilou e agora vai com o filho. (…) É uma satisfação. É adrenalina pura, todo mundo sente. É repetir o que se faz no estádio, sendo que no Carnaval é até mais fácil. Se precisa cantar 90min para empurrar o Corinthians para ser campeão, no Carnaval são 65min”, encerra o puxador de “A saliva do santo e o veneno da serpente”, tanto em 1994 quanto em 2019.


Postar um comentário

0 Comentários